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quinta-feira, 5 de abril de 2018

O Cancomblé no Brasil - por Iyá Adriana T'Omolu


 Iyá Adriana T'Omolu
(palestrante na 2ª Semana de Ogum
em Guaíra, no dia 26/04/2018,
às 19:30h, na Casa de Cultura)



O Candomblé no Brasil foi trazido por  três rainhas, três mulheres, três mulheres africanas que foram escravizadas, trazidas forçadamente ao Brasil. O Candomblé, a princípio, vem com a possibilidade, mas não só, vem com a missão de continuar o culto a Xangô, uma vez que foi o Rei de Oyó que deu a elas a missão de trazer o culto a Xangô ao Brasil. Mais que um culto, é uma religião de resistência, de agregamento, porque teve como uma de suas funções, como principal função, eu poderia dizer, a sobrevivência da cultura africana no Brasil, do culto a Orixá no Brasil. Foi a forma, uma das formas de sobrevivência da cultura africana por meio de sua religiosidade, da sobrevivência dos corpos africanos tão marginalizados, tão destruídos pelo processo escravagistas tão maculado, por toda sorte de tortura e sofrimento.
Corpos negros que foram destituídos de sua identidade étnica, com tudo que possa significar sua cultura, sua identidade, sua crença.

Três mulheres fundaram o Candomblé no Brasil, mas isso não significa que o Candomblé já não existia, mas com esse nome e como uma instituição religiosa, foi por meio de três mulheres. Portanto, o Candomblé, uma religião brasileira, porque fundada em solo brasileiro, se constituiu, mas de Matriz Africana vem com a missão de perpetuar o culto a Xangô, porém foram várias as nações que aqui foram forçadamente trazidas, várias crenças todas cultuando Orixás que são divindades africanas, Deuses e Deusas Africanas e, assim que o Candomblé se firma enquanto religião de matriz africana, se constitui e se faz com o culto principalmente a 16 Orixás.

O Candomblé tem, como uma de suas principais missões, garantir a sobrevivência do povo africano por meio da agregação, papel esse das mulheres, porque as mulheres são as que garantiram que não se perdesse de vista o Sagrado, o divino, a família, a religiosidade, e garantisse assim, a sobrevivência desses e dessas que tão massacrados foram por um dos processos mais cruéis da história humana, a escravização de seres humanos, a escravização e o tráfico de seres humanos transformados em coisa, transformando pessoas em nada.


Cultuar Orixá é, antes de tudo, cultuar a si mesma, sua história, sua origem, sua ancestralidade, sua humanidade. É cultuar, é perpetuar os valores civilizatórios africanos que constituem a nação africana. Nada nos tira a origem nobre, amorosa e agregadora que valoriza a oralidade, a religiosidade, a circularidade, a ancestralidade e outros valores positivos que formam a nação africana.

Nós, mulheres negras e não negras, que estamos dentro das religiões de matriz africana, não podemos perder de vista que a nossa religião é africana, portanto cultura Deusas e Deuses pretos, é resistência a tudo que faz mal ao ser humano, é resistência ao racismo, ao fascismo, ao machismo, à homofobia. O Candomblé é uma religião que busca o sagrado das divindades, que nos fazem lembrar todos os dias que somos reis e rainhas em terras tão cruéis, mas que hoje é a terra de nossas ancestrais e de nossos ancestrais. É aqui que estamos, aqui que vivemos, aqui que nossos ancestrais sofreram por meio da chibata e de toda sorte de tortura, mas que nunca deixaram de acreditar nos Orixás, que não deixaram de acreditar no amor de Orixá.

 Que não deixemos de acreditar no amor, que não deixemos de acreditar no ser humano. 

Mais que religiões, somos seres humanos e todo ser humano merece estar nesse mundo, isso aprendemos com Orixá, através do culto a Orixá. Cultuar o Divino é lembrar todos os dias que todo ser humano é Divino, que todo ser humano é centelha Divina, que todo ser humano é rico em história, que todo ser humano tem ancestralidade, que ninguém é melhor que ninguém e que, se permitimos que Orixá esteja em nossas vidas, o maior mal que eles podem nos fazer é nos fazer felizes, não nos deixar faltar comida em nossos pratos, cultuar o respeito aos mais velhos, respeitar as mulheres anciãs e os anciões e mais, respeitar a vida em todas as suas formas. 

Eu sou feliz por ser de Orixá, eu sou feliz por ser de Axé e é nessa condição de viver o Divino, de viver a minha fé, que eu quero viver até o último dia, o dia de fechar meus olhos definitivamente. Nós mulheres temos um papel fundamental nas religiões de matriz africana, temos consciência que o homem se perceptível a sua condição de humanidade é parceiro, é companheiro. Não há, em nenhum momento, na religião, a fala em relação à subordinação de um gênero sobre outro; não há, no Candomblé, nenhuma fala que incite o ódio; não há, no Candomblé, nenhuma fala que coloque um ser humano em estado de superioridade a outro. 

Sejamos mais humanos, sejamos mais amor, sejamos mais fraternos uns com os outros. 

Eu sou, porque nós somos! Ubuntu!

Iyá Adriana T'Omolu
Pedagoga, sacerdotisa de candomblé e ativista do movimento negro e feminista.
Sacerdotisa da Casa ILÉ AŞĘ  OLÚ INÓN ATI BÀBÁ FUNFUN, Suzano-SP.